17 setembro 2014

Crônica: Aprendendo sem querer


Quando eu tinha uns 14/15 anos minha mãe começou a me ensinar essas coisas de casa- lavar a louça, a roupa, limpar aqui e ali, fazer comida e se virar. Eu como qualquer outra menina da minha idade não me interessava nem um pouquinho, olhava pra ela e dizia "mas mãe, eu não vou precisar disso" e ela respondia "ah ta, e quem vai fazer pra você?". Silêncio. Tudo menos fazer serviço. E lá ia a mocinha com a cara amarrada. Nunca entendi porque minha mãe tem tanto tapete em casa, eu tinha que varrer todos e aspirar. Me dava uma raiva já no primeiro e só na sala tinha uns 10, fora as 15 cortinas diferentes que eram trocadas 2 vezes por ano, mas continuavam da mesma cor: bege. "É nude, Franciele". Dona Celina também tinha uma imensidão de objetos pequenininhos pra decorar todos os cantos, eu sentava e passava um paninho em todos, assim era toda sexta-feira. Minha mãe é uma daquelas mulheres super independentes que trabalha o dia todo, cuida dos filhos, do marido e ainda acha tempo de supervisionar o lar, e é totalmente contra a ideia de ter empregada em casa, o que eu defendo (embora pensasse comigo mesma que quando me mudasse iria contratar alguém pra fazer tudo). Na primeira semana que comecei a morar sozinha descobri que minha mãe é uma sábia e que eu não sabia nada. Acredite, a roupa não fica limpa e passada sozinha e eu demorei anos pra aprender a usar o tanquinho e a centrífuga, o momento certo de jogar o sabão em pó e o amaciante, descobri que ninguém recolhe a roupa do varal também e coloca no armário pra gente... Um dia, sem querer, misturei as peças brancas com escuras, nem preciso contar minha reação, né? Ficou tudo bem colorido e eu fingi que era tendência. Sabe, existe um um pó que surge do nada no chão e nos móveis todo santo dia, eu deixo tudo brilhando e de tarde tá sujo de novo. Precisa ter uma vassoura diferente para cada ambiente, um pano para cada função e uma infinidade de produtos. Por que isso? A louça não vai caminhando para o armário e a geladeira não é um portal mágico por onde a comida entra, principalmente doces, gorduras, sorvete e refrigerante. Precisamos ir ao mercado, fazer uma listinha certa do que comprar e a Nutella nunca foi tão cara. Agora eu sei porque meus pais diziam no "dia da compra" que não dava pra levar toda a prateleira. Quando estamos fora de casa aprendemos a controlar os gastos e aceitar que no fim do mês as contas chegam cheia de impostos e a gente pensa: "mas eu nem gastei tanta luz assim, que absurdo"; que se der algum problema temos pouco tempo pra resolver e tem que achar um jeito pra dar tempo de fazer tudo. 24 horas é pouquíssimo pra um dia, deveria ter 48. Ou mais. Ah, eu achava que era frescura, mas precisamos guardar os comprovantes e recibos por anos e ter uma caixa só pra isso. Dá pra acreditar? Também um caderno pra marcar cada despesa, um fundo de poupança porque a qualquer momento pode queimar uma lâmpada, ter um problema com vazamento de gás, um chuveiro queimar, qualquer coisa maluca pode acontecer e ninguém avisa. Só acontece. Acaba aquela coisa de ir ao Shopping e comprar tudo só porque está em liquidação, é preciso analisar. Mas nunca funciona comigo. Eu compro tudo e depois ligo para os meus pais de dedos cruzados para que eles não me matem. Só que ultimamente eu tô focada, seguindo o exemplo da dona de casa. Pra ter uma noção, minhas últimas compras foram uma televisão, microondas, uma lavadora nova e um vaso de flor pra decorar a mesa. No meu aniversário eu estava esperando um super presente- sapato, roupas, um cartão ilimitado, uma viagem pra Nova York- mas acabei ganhando um liquidificador e um aspirador de pó. Minha realidade de vida. Meu feijão até hoje dá errado e o arroz as vezes gruda no fundo e vira uma meleca, também consigo queimar a carne e deixar o macarrão mole demais. Miojo nunca falta e engordei uns quilinhos com fast-food também. Por que é que a vida é assim? Eu queria levar minha mãe para todo o lado, sinto que ela cuida melhor de mim do que eu mesma. Essa semana fiquei de férias e aproveitei para visitar minha família e ficar uns dias sem fazer nada (depois que eu me mudei, me tratam como um anjo. Brigas e puxões de orelhas nunca mais). Na terça acordei cedo para um dia das mulheres, minha mãe me convidou pra fazer compras e me animei. Adivinha onde fomos? Em uma loja de decoração comprar almofadas e cortinas novas. Ficamos durante horas decidindo quais cores combinavam mais com os móveis, com o chão, com o teto, vendo paletas e tecidos diferentes. Eu realmente estou ficando louca e perdida, e amando tapetes, porcelana, objetos estranhos e agora sei a diferença de bege e nude. Acho que aprendi direitinho.. Ou pelo menos a metade da metade.

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2 comentários:

  1. Que crônica gostosa de ler! E tão real também... "Acho que minha mãe cuida melhor de mim do que eu mesma" haha me identifiquei muito! Essa é a triste realidade ;(

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  2. Ai fico muito feliz em saber que gostou :3 Triste realidade mesmo auuahuaua mais triste ainda quando a gente percebe que precisa se virar sozinha :O

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