23 outubro 2013

Partidas, despedidas, vida, ida... Mudanças.

Mudanças. Mudanças parecem ser tão boas quando ficam só na teoria, mas na prática... Ah, ai é que são elas. Passava de oito horas, talvez já fosse nove, pela primeira vez eu não estava me importando com o relógio que desesperadamente acelerava os ponteiros como se não houvesse mais nada no mundo. Na verdade minha maior preocupação eram as cinco malas e outras três caixas empilhadas de qualquer jeito no canto do quarto ao lado de uma sacola com tudo que sobrou. Tentei mentalizar minhas listinhas- é sempre bom ter listas, mesmo que na maioria das vezes eu não as cumpra- e esperava não ter esquecido de nada. Ah é, eu estava esquecendo as fotos e pôsteres da parede. Benditos, cada um com significado diferente. Olhei para a foto de quatro meninas sorrindo enquanto conversavam, como elas estariam agora? Onde estariam? Um dia foram unidas... Um dia. Vi o pôster da minha banda favorita desbotado na parte superior, havia ganhado de um amigo três anos antes quando decidi virar punk, agora eu estava mais pra indie. Em seguida mais fotos, caretas e controversas de momentos tão perdidos e distantes. Sorri. Fui descolando as imagens espalhadas pela parede azul celeste, e a fita adesiva tirava alguns pedacinhos de tinta. Já com as mãos cheias, analisei o céu que havia pintado no meu quarto e lembrei do dia em que eu e minha mãe escolhemos a cor e passamos a tarde fazendo o trabalho. Nem ela e nem eu sabíamos o que fazer, entretanto o resultado ficou agradável e a tarde uma raridade. Agora só restavam lembranças e um vazio. Aliás, meio vaio. Ainda não havia tirado os pássaros feitos de papel contact preto colocados em forma de revoada expressando a liberdade. Liberdade espiritual e psicológica, segundo um livro daqueles que falam sobre nosso astral. 
- Tá pronta? - disse minha mãe com um sorriso amarelo ao abrir a porta do quarto.
- Fazer o quê...
Pegamos as malas pouco a pouco colocando-as no carro, enquanto meu pai reclamava argumentando sozinho que mulheres são mulheres e bem exageradas. Em outro momento eu iria entrar na onda e debater horas e horas explicando a necessidade que temos de ter tudo perto, ao contrário dos homens. Mas deixei passar meu instinto feminino de defender minha posição, talvez ele não tivesse entendido que era uma mudança e não uma viagem de três dias. Pais são pais, eles não entendem nada. Já dizia Veríssimo, ou melhor, Luiz, o filho de Veríssimo. Com tudo arrumado e um coração apertado, voltei para o meu cantinho do céu de verão pegar um livro que eu planejara ler no caminho, quatro horas de viagem entre curvas sinuosas e estreitas que a serra reservara não é pra qualquer um. Senti o típico cheiro, agora sem os incensos que eu costumava acender. A nostalgia se estabelecia mesmo antes da partida, das despedidas, agregando-se a vida sutilmente. Partidas, despedidas, vida, ida... Tantas rimas, uma só mudança. Fechei a porta ao mesmo tempo em que outra se abria, a porta do mundo que eu tanto almejava. Olhei o resto da casa, eu voltaria no próximo feriado, mas não como antes, só como visita. Talvez pintassem de bege meu quarto, minha mãe gostava dos nuances da cor e do  laranja também. Talvez a cama mudasse de posição e a cortina listrada da sala fosse tirada, tudo bem, não combinava mesmo. Talvez jogassem fora o lustre antigo e fosse substituído por um globo espelhado... Não, isso não. Mas quem sabe!? O problema é que eu não participaria das escolhas e não daria meus palpites.
- Eu volto logo, prometo. Sem chororô. - abracei minha mãe sentindo meus olhos encharcarem.
- Quando chegar me ligue. - não escutou nada do que disse. Mães...
Senti a liberdade entrando na minha mala bordô sem pedir licença, apenas disposta a me seguir. Eu era mais um pássaro voando pela imensidão dos ares, descobrindo caminhos, entregando-se ao azul que agora desprendia-se da parede... Das raízes. Era a hora, a minha hora.

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6 comentários:

  1. Me fez chorar...
    Fran...ser amiga é dizer vá em frente.siga seu caminho,boa sorte...mesmo quando o coração sofre,quando tudo que eu queria dizer é por favor volte...
    Me lembrei: Foi o tempo que dedicastes à tua rosa que fez tua rosa tão importante" Antoine de Saint-Exupéry
    Sentirei muito sua falta *-*

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    Respostas
    1. Obrigada pelas palavras, amiga. Me fez pensar em muitas coisas rs Saudades de você e de todos ai. Espero que não tenham me esquecido u_u ahuahuahuaa

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  2. Lindo T.T
    Beijos.
    http://hime-samadesu.blogspot.com.br/

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  3. Ooooown *-* Guria, eu ainda fico impressionada! Como você escreve bem viu?!
    Não sei como será o dia em que terei que dizer 'Tchau' para minha mãe, normalmente pensar em sair de casa parece ser algo libertador, um gostinho de liberdade... mas lendo assim eu me senti tão... "Quero minha familia forever and ever" não que eu tenha entendido que ficar em casa e nunca sair seja bom, mas porque me fez entender que não será fácil e que devo aproveitar agora!

    Beijão

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  4. Listas são vidas u.u
    Gente, quanto sofrimento :o E você falando que estava feliz em sair da aldeia, nos sabemos Franciele, é difícil deixar os rios e os bosques kkkkkkkkk ok parei u.u Acho que o próximo 5 on 5 deveria ser fotos do seu quarto antigo e coisas do tipo, porque quero ver como ele é :p mas enfim, gostei do seu texto ^.^ Beijos ♥

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