15 outubro 2013

Efeitos do Destino - Parte 17

Depois de permanecer deitada por alguns minutos pensando no meu futuro, minha mãe chamou pelo meu nome da varanda:
- Laureeeen, preciso de ajuda com as sacolas.
Revirei os olhos e levantei indo pra fora, ela estava tentando empilhar as sacolas enquanto fechava a porta do carro e uma delas espatifou no chão.
- Espero que não tenha nada ai que possa quebrar.- disse a caminho do carro.
- Acho que era a sacola com legumes, ou pelo seu bem tomara que seja. Pega logo. - mandou fingindo que estava brava.
- Mãe, pago pra te ver cozinhando. Vai ser a melhor diversão da noite e ah, como eu queria que tivéssemos aquela câmera ainda.
- Nós não temos mais? - parou para me analisar.
- Claro que temos - esqueci que ela não sabia de seu trágico paradeiro- É que não sei onde está. - disfarcei.
- Ah tá... Só espero que aquele cachorro pulguento não tenha feito nada com ela, custou os olhos da cara.- e continuou andando desconfiada.
- Não, não. Está por ai em algum lugar, vamos achar, prometo- o pulguento tinha feito caquinhos da câmera e agora eu tinha mais um problema.
Fomos para a cozinha e minha mãe começou seu jantar especial de olho no caderno de receitas, acho que até o suco ela fez com a ajuda do mesmo. Enquanto ela não parava um instante de falar sobre o Robert e como ele era incrível, lindo e inteligente, eu tentava achar uma brecha para entrar no meu assunto bem mais importante que um cara bem sucedido e de gosto refinado. Mas ela estava tão empolgada detalhando o deus grego que não consegui falar nada além de concordar e ficar horrorizada com alguns detalhes sórdidos que ela contava. Minha relação com a Mirele não era das mais tradicionais entre mãe e filha, éramos como amigas do colégio e ela compartilhava até seus relacionamentos e intimidades comigo. Pode parecer estranho, mas isso nos aproximava e ajudava a sustentar nossa relação, já que vivíamos separadas. Por isso queria contar logo sobre a gravidez, mas do jeito que ela se encontrava em outra dimensão chamada Robert, não teria nenhuma chance. As horas passaram e minha mãe pediu que eu me arrumasse e ficasse apresentável e não com cara de menina de rua como sempre. Fiz uma cara feia e a reprovei, eu só queria roupas confortáveis. Tomei um banho e coloquei meu vestido soltinho com um cardigã, fiz um coque de qualquer jeito e voltei para a cozinha para olhar o assado, nisso minha mãe desceu linda como sempre e com a mesma cara de 20 anos como se tivesse parado no tempo. 
- Uau, se ele não tinha pretensão de namorar contigo, hoje isso vai mudar. Está linda, mãe. - tentei parecer o mais sincera possível, mas ela riu.
- Dá um tempo, né!
Minha mãe estava inquieta andando pela casa feito louca, pedi que ela se acalmasse e até brinquei dizendo que não era o primeiro encontro, muito pelo contrário. Porém ela continuou e piorou quando ouvimos uma batida na porta. 
- Ele chegou- ela cochicou- como está meu cabelo?
- Tá ótimo, vai abrir a porta.
- O que? Ah sim, a porta- ela tropeçou um pouco e parou de frente com a porta respirando fundo. Debrucei no braço do sofá, era muita informação para uma segunda-feira.
Mirele abriu a porta e esbanjou logo seu sorriso enorme e brilhante:
- Pontual como sempre- ela ficou na ponta dos pés e deu um beijo no rosto do cara que eu não conseguia ver do sofá. - Obrigada, não precisava se incomodar, querido. - ah ele trouxe um presente, esperava ganhar algo também.
- Você merece.- ele respondeu com voz jovial e finalmente entrou na sala.
Fiquei boquiaberta. Boquiaberta ainda não é a palavra certa. Acho que fiquei chocada- mais que isso ainda. O tal do Robert era a cara do Hugh Jackman e tinha todo aquele ar de galã de filme. Ao lado da minha mãe eles formavam um casal daqueles que vivem sendo fotografados na rua. Meu choque continuou por alguns instantes, até que o clone do Hugh falou:
- E você deve ser a Lauren. Muito prazer. - ele sorriu e eu quis pedir um autógrafo. Levantei desajeitada e respondi um "é, sou a Lauren sim" meio nervosa. - Sua mãe fala sempre de você, acho até que te conheço muito bem por isso.
- Ahhh... 
- Vamos para a cozinha? Comprei um vinho maravilhoso que você irá adorar.
- Claro- ele concordou e fomos para a cozinha abrir um Cabernet que eu vira em uma das sacolas. Os dois encheram suas taças e eu fiquei no suco de laranja pensando em como minha mãe conseguia esses namorados. Não era possível. Mas estava feliz por ela, Robert parecia ser culto e educado, bem melhor que os outros doentes que ela já havia namorado. 
- Lauren, conte ao Robert sobre a faculdade que pretende fazer. Ele acha que você deveria seguir no ramo da moda como eu.
- Mãe ele não quer saber disso agora. Eu é que tenho perguntas, como se conheceram mesmo? - estava realmente interessada.
Os dois se olharam em meio a sorrisinhos bobos de jovens apaixonados e Robert foi o primeiro a responder:
- Foi na viagem. Estava cuidando dos desfiles e em uma das reuniões sua mãe não concordou comigo e discutimos. - ele ria.
- Claro, eu estava certa ao deixar os vestidos de festa para os últimos dias. Você aceitou minha opinião de livre e espontânea...
- Livre e espontânea pressão.- ele a interrompeu.
- Tanto faz. O importante é que eu estava certa. - ele a o olhou e os dois namoraram de longe por um instante.
- Sim, está sempre certa. - depois virou e me olhou- Devo me acostumar com essa mania dela, Lauren?
- Deve sim, ela sempre está com a razão.- sorri amigavelmente mesmo que me sentisse a maior vela do mundo ali na cozinha. 
Conversamos antes, durante e depois do jantar. Robert elogiou a comida e minha mãe deixou escapar que não fazia ideia do que tinha feito, não pude deixar de rir e contar sobre o caderno que ela escondera na gaveta. Falamos sobre viagens, moda e quando tocaram no assunto da faculdade novamente, fiquei chateada, pois eu não iria cursar nada além de um cursinho intensivo de mãe. Servi a sobremesa que era um sorvete de creme com calda de framboesa e pedacinhos de chocolate. Estava uma delícia, depois iria elogiar o moço da padaria. 
No meio de uma conversa sobre como a política precisava melhorar, o celular do Robert tocou e ele pediu licença indo direto para a sala. Aquela era a hora de fazer comentários femininos:
- Mãe, você não disse que ele era tão legal. - disse baixinho.
- Na verdade eu disse, mas você não prestou atenção, bonequinha. Gostou dele? Acha que vamos casar? Ficamos bem juntos? - ela tinha um turbilhão de perguntas.
- Só mantenha a calma, você sabe o que dá ir com pressa. - aconselhei.
- Quem vê você falando assim pensa que você é a expert das relações - ela mostrou a língua- mas vou me conter e como é mesmo? Manter a calma. Meu cabelo continua bom?
Sorri confirmando e disfarcei quando vi Robert voltando.
- Me desculpem, era da agência. Ligaram para confirmar nossas passagens.- animou-se.
- Que passagens? - ops, ninguém havia me contado nada.
- Você não contou a ela?- perguntou para minha mãe ainda animado.
- Não. Não tive tempo. - ela esquecera, essa era a verdade.
- Então me contem agora- pedi sorrindo, mas desconfiada.
- É que... Vamos para o Brasil, filha. Semana que vem. - ela falou tentando se desculpar com o um sorriso frouxo. 
- Brasil? Nossa. Semana que vem está tão... Tão semana que vem. O que tem lá no Brasil?
- Desfiles e vamos investir em uma grife também.- Robert já estava sentado na mesa devorando outro sorvete.
- É, acho que você se lembra que era meu maior sonho. Mas não demoro para voltar, ficaremos duas semanas, no máximo três... Quatro.
- Um mês passa rapidinho, né mãe. Não se preocupe comigo. - tentei convencê-la. - Sei que é importante para você e para seu trabalho. 
- Sabia que entenderia, querida. Depois conversamos sobre isso, ok? Mais vinho? - e assim o clima ficou tenso e ninguém disse nada por vários minutos.
Agora sim eu estava perdida. Tudo bem que minha gravidez era algo urgente, mas eu não podia preocupar a Mirele agora que ela estava com um projeto tão grande que eu tinha certeza que mudaria seu futuro. Se eu contasse, ela iria sofrer uma crise e desistir da viagem e era injusto, injusto porque ela passou anos esperando essa oportunidade. Apesar de não ser uma boa ideia, decidi que iria manter o segredo e enfrentar a situação como pudesse, nem que isso me custasse muito.

Continua.

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2 comentários:

  1. oie linda amei seu blog se vc puder visitta o meu pf
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  2. Fico feliz que tenha gostado, logo passo pelo seu rs <3

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