19 agosto 2013

Conto: Efeitos do destino- Parte 1.

A neblina estava voltando para o seu lugar, dando espaço ao vento frio e a garoa. O clima continuava úmido e extremamente gelado, começava o inverno em Oxford. Acordei por volta das 10h da manhã com o telefone tocando, atendi em um pulo:
-Alô?
- Bom dia, senhora Lauren Ammons?
- Hum. Do que se trata? – perguntei desconfiada.
- É do serviço telefônico e gostaríamos de dar um aviso, a linha será cortada por falta de pagamento.
- Sei. Mas ela não se encontra, viajou e volta dentro de um mês.
- Muito...
- Tá, tchau- Bati o telefone e nem me importei em mentir, afinal, se iam cortar meu telefone, que cortassem logo.
 Levantei da cama mesmo que a vontade maior fosse continuar dormindo e se possível por cem anos. Pensei nos planos para aquela quarta-feira triste e cinza demais, e como não tinha muito que fazer até umas 15h, tomei um banho demorado cantando uma de minhas músicas favoritas Sunrise doesn't last all morning, A cloudburst doesn't last all day. Seems my love is up...”. Desci até a cozinha e analisando a situação na qual ela se encontrava, com relação a comida, decidi que a melhor opção era tomar um café no The Skyfall que ficava a alguns quarteirões de casa, na High Street 51. Conferi o dinheiro e dava pra sobreviver por pelo menos um mês, depois disso começaria a rezar e pedir um milagre ou um bilhete premiado. Coloquei minhas botas uggs, um casaco grande e touca. Sai a pé, queria aliviar a tensão daquela manhã e ficar disposta para a tarde, tinha algumas entrevistas de emprego e precisava estar apresentável, pois ninguém contrata uma pessoa com cara de zumbi. Estava andando com um ar meio catastrófico de quem estava sendo acompanhada pela morte e contentando-se com ela, não conseguia fingir um sorriso nem pra mim mesma, pois os últimos dias não tinham sido nada fáceis e também já me acostumara com essa solidão. Moro sozinha desde que minha mãe sumiu com uma desculpinha de “estou de férias com meu novo namorado no Brasil”  e ter a casa só para mim não era tão legal quanto meus maiores desejos no início da adolescência, não quando se está sem dinheiro, sem comida e recebendo ameaças para pagar o aluguel ou seria despejada. Sem falar no término das aulas que contribuíram com a solidão, minhas amigas... Podemos chamar pessoas que te deixam na mão sem mais nem menos de amigas? E devo contar com o fim do namoro há uns dois meses atrás. Tudo ao meu redor me afligia tanto que chegava a me deixar em êxtase. Tem gente que diz que às vezes o avesso é o lado certo, mas confesso que não era meu número, pois não me serviu. Eu só queria cavar um buraco no chão e me esconder ou entrar no guarda-roupa e parar em Nárnia, nas terras encantadas de Atacama- nem sei se são encantadas, vi em um jogo. Eram tantos problemas, mas se eu falasse todos teria uma enorme lista e descobri com um velho camarada que esquecer os problemas ajuda a viver melhor e retarda o envelhecimento. Cheguei ao café, o lugar era escuro e tinha uma decoração impecavelmente britânica com ar de rock antigo, todos os dias a playlist era regada a Beatles, The Scorpions, Muse, U2 e bandas que o gerente gostava. Eu achava o The Skyfall mais um barzinho do que padaria e café, mas diziam que era uma mistura dos dois e se você queria se esconder do mundo, relaxar e desligar-se, essa era a escolha certa. Escolhi uma mesa de frente com a janela principal e de costas para o balcão, havia alguns banquinhos ali e uma vitrine com pão doce, salgados e bolos de chocolate com cerejas em cima, o padeiro era um perfeccionista e sua vitrine era como uma exposição. Logo em cima tinha uma prateleira com várias bebidas contrastando o ambiente.  Sentei e em seguida a garçonete Mariane veio me atender, pedi um Full English Fry-up (ovos mexidos, bacon, pão e chá com leite), a música de fundo era instrumental e combinava com cada detalhe da cidade e do local, fiquei olhando pra garoa fina que caía, mil pensamentos vieram a tona e respirei fundo tentando acompanhar o ritmo, enquanto batia meus dedos suavemente em cima da mesa o tempo voou, logo a refeição chegou e na primeira mordida no pão ouvi uma voz familiar que atingiu até a minha alma como um soco bem dado, a voz que eu não queria ouvir em nenhum lugar além de nos meus sonhos:
- Ei Bernard, o de sempre, por favor.

Não. Não acredito. Não naquele dia, meu Deus. 
- Claro Andrew! – respondeu animado o cara do balcão.
- E vê se faz direito hein, não demore.
Tão convencido, ele achava que tinha intimidade com todos e tinha, acho que Inglaterra inteira gostava dele. Minhas pernas tremiam e eu queria acreditar que era o frio, meu coração tomou uma pulsação diferente e ficou frenético e antes que eu amolecesse, literalmente falando, concentrei meus pensamentos em bacon, apenas bacon. Eu estava sendo idiota e não queria mais pensar que ele estava ali há poucos metros de distância. Mexi o cabelo de modo que ele tapasse parte do meu rosto, como se adiantasse. Peguei o cardápio num ato sem sentido para me esconder, mas acho que o movimento chamou-lhe a atenção. Eu queria sair dali de fininho ou talvez correndo mesmo. É nessas horas que deveria existir teletransporte, pois sumir e acreditar que ele não tinha me visto era uma boa ideia, mas ele tinha:
- Oi, Lauren...


Continua.

Comente com o Facebook:

6 comentários:

  1. Mas que lindo! Ansiosa pelas próximas partes. Parabéns! ÉS MUITO TALENTOSA.

    Quer dar uma passadinha no meu blog, também? http://chantillycious.blogspot.com.br
    Estou lhe seguindo! Sucesso!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Own, fico feliz que tenha gostado e pelo elogio. Logo postarei as outras partes e espero que agrade também <3

      Excluir
  2. Sei lá mana, acha que da um belo livro. Escrita suave, e verdadeira. Tem sentimentos, isso meche com quem ta lendo, é bom ! (pelo menos pra a minha pessoa u.u) Aguardando você publicar seu livro.
    Parte da zueira: Bacon hoje, bacon amanhã, bacon pra sempre u.u kkk Beijos <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você sempre me emociona, vou pagar pra você comentar no meu blog e me deixar bem AHUAHUAHUAHAUAHUAHAUHAUHAUHUHA <3 Vou publicar um livro em edição especial pra você, me ame kkkk

      Excluir
    2. te amando u.u pera ai vou ali pegar o número da conta u.u KKKKKKKKKKKK

      Excluir
    3. KKKKKKKKKKK tenho que começar a pensar melhor nas coisas que digo pra você, senão vou ficar perdida u_u kkkk

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Layout: Bia Rodrigues | Alterações: Franciele Honorata | Tecnologia do Blogger | All Rights Reserved ©